sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O palhaço e a busca individual pela identidade



“O rato come queijo. O gato bebe leite. E eu sou um palhaço”


Uma coisa que eu quero, há tempos falar é sobre um dos melhores filmes nacionais (quiçá um dos melhores filmes do mundo) que já assisti e me identifiquei. Talvez você tenha algum preconceito ou simplesmente não goste de filmes nacionais. Não vou julgá-lo por isso, afinal, somos tão bombardeados por produções caríssimas hollwodianas cheias de técnicas e efeitos especiais que nossos filmes parecem sem graça (apesar de serem bem interessantes). Mas os roteiros dos filmes nacionais sempre me impressionaram e vale a pena abrir uma exceção no gosto para “O palhaço” (2011), segundo longa dirigido por Selton Mello.

O filme conta a história de Benjamin (Selton Mello) e seu pai, Valdemar (Paulo José) que formam a dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue em um circo que roda pelo Brasil, alegrando e divertindo o público. Mas a vida está sem graça e difícil, para Benjamin que pensa em abandonar o circo e seguir seu próprio caminho. Toda a equipe do circo percebe essa aflição na vida de Benjamin o que, em alguns momentos, acaba interferindo na performance da equipe e do próprio Benjamin.



Análise da história


Atenção! Se você nunca assistiu ao filme, esse texto pode conter spoilers indesejados.

Desde o inicio do filme, percebe-se que a ideia principal é a falta de identidade do protagonista e isso se mostra tanto internamente como em fatores e eventos externos ao personagem. Uma das cenas iniciais mostra um policial pedindo a documentação do circo para Benjamin, junto com sua própria carteira de identidade. No entanto, a documentação do circo está atrasada e Benjamin não tem carteira de identidade, apenas a certidão de nascimento.  Isso é um paralelo visual ao seus conflitos internos. Benjamin não sabe sua identidade e não sabe se realmente pertence ao circo. Ele sente a necessidade de se encontrar de encontrar o lugar ao qual pertence.

Logo após primeiro espetáculo que vemos no filme, duas garotas se aproximam de Benjamin, perguntando se ele conhece a cidade onde elas moram e convidando-o para visitá-la. Uma delas aparenta gostar de Benjamin. A atuação de Selton Mello é impressionante, demonstrando a depressão e desanimo do personagem de tal forma que nem com as garotas ele se anima. Mas, ao mesmo tempo que Benjamin deseja buscar sua identidade e lugar, ele não está disposto a deixar o circo. Ele abre mão de si próprio pelo circo. Vemos isso quando ele entra em sua barraca e encontra Lola, que lhe sugere comprar um ventilador. Benjamin quer muito um ventilador, mas se recusa a comprar um, pois o circo não dispõe de condições.

Logo, temos um protagonista, em busca de sua identidade, depressivo, infeliz e que não faz nada do que deseja nem busca o que deseja.

Além dos conflitos internos do protagonista, há os conflitos externos que ele tem de lidar: As finanças do circo estão ruins, principalmente por causa de Lola, amante de Valdemar, que rouba parte do dinheiro do circo. O pai que se faz de cego, perante isso e pouco parece se importar com o circo, deixando quase tudo nas mãos de Benjamin. Os outros membros da equipe com dificuldades, devido às economias.

Em pouco tempo de filme, temos um protagonista e seu mundo muito bem apresentados, juntamente com seus conflitos internos e externos. Tudo bem demonstrado através de cada cena e diálogo. Um belo roteiro bem estruturado.




Logicamente, os companheiros do circo percebem a crise pela qual Benjamin passa, incluindo seu pai. A crise de Benjamin entra em seu ponto máximo quando ele apresenta um espetáculo completamente bêbado, quase estragando o espetáculo inteiro se não fosse pelos seus colegas. Benjamin decide então que está na hora de partir e encontrar sua própria identidade.

Sozinho e fora do circo, Benjamin procura a garota que conhecera no inicio do filme. Ele passa a trabalhar em uma loja, tira sua carteira de identidade e finalmente compra um ventilador para si. Isso mostra que Benjamin agora está encontrando sua identidade, está pensando mais em si mesmo. E está encontrando seu lugar. Essa é a parte da jornada do herói em que o mundo do herói se expande. Benjamin conhece o mundo além do circo no qual cresceu.

Não quero dar mais spoilers, principalmente contar o final. Mas posso dizer que me emocionei muito com o final do filme (o que não é difícil, pois me emociono fácil). O filme entra facilmente na minha top 100, provavelmente está entre os top 10. Com certeza é um dos melhores filmes nacionais. A narrativa, mesmo sendo um pouco lenta é excelente, com muitos fatores pequenos fazendo parte da trama maior. Há alguns momentos engraçados, embora o filmes seja um drama. E segue a ideia de “quem faz o palhaço rir?”

Lição de vida



A mensagem do filme é sobre a busca por uma identidade. Devemos sair da nossa zona de conforto para buscar e conhecermos a nós mesmos. Muitas vezes essa é uma atitude difícil, não pelo comodismo em si, mas pelas questões à nossa volta: Não podemos simplesmente abandonar tudo. Assim como o circo dependia de Benjamin, há muitos fatores à nossa volta que não podemos abrir mão, nos tornado presos à nossas responsabilidade e, consequentemente infelizes.

A frase “O rato come queijo, o gato bebe leite e eu sou palhaço”, repetida em pontos cruciais da trama, nos mostra que cada individuo tem seu propósito e seu objetivo. Assim como é comum que um rato coma queijo e um gato beba leite, um palhaço tem seu objetivo de alegrar as pessoas. Se um rato come queijo e um gato bebe leite, eu devo ser eu mesmo. Assim como o rato, e o gato, nós devemos saber quem nós somos. Um rato que não sabe que é rato, pode acabar bebendo leite, pensando que é gato. Muitas vezes estamos vivendo de um jeito que não condiz com o que somos.

Por muito tempo, eu nem sequer pensava em escrever ou em ganhar a vida como escritor e roteirista. Mas, uma vez que encontrei minha identidade na escrita, o mundo mudou completamente para mim. Eu me encontrei, sabia o que eu queria e podia, finalmente ser eu mesmo. Um rato come queijo, um gato bebe leite. E eu sou escritor.

Nem sempre precisamos sair do nosso meio como Benjamin teve de sair do circo para se encontrar. As vezes podemos mudar nossa rotina. Precisamos conhecer outros meios de vida, assim como Benjamin precisou ser outras coisas além de palhaço a fim de buscar sua identidade e seus sonhos. Talvez existam muitas responsabilidades que dependam de você e que você precise transferir ou abrir mão. Talvez existam coisas em sua vida que você tem que deixar para trás (lembre-se que Benjamin deixou seu pai e seus companheiros para buscar a si mesmo). Mas se você sente-se infeliz, pode ser por você não ter encontrado sua identidade.

O rato come queijo, o gato bebe leite... e você? Você é o que?

“O palhaço” está disponível na Netflix e no telecine Play. Vale muito a pena assistir.




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