domingo, 4 de março de 2018

A grande jogada e o trabalho incrível de Aaron Sorkin

Existe uma lenda entre os roteiristas. Essa lenda se chama Aaron Sorkin. Os roteiros de Sorkin são respeitados e admirados no meio cinematográfico, afinal ele escreveu filmes como “Questão de honra”, “A rede Social” e “Steve Jobs”. Seus personagens são inteligentes e os diálogos em seus roteiros são maravilhosos. Não é diferente com “A grande Jogada” (Molly’s game) que concorre ao Oscar de melhor roteiro adaptado esse ano.


Sinopse

Após perder as chances nas Olimpíadas, Molly Bloom (Jessica Chastain) se torna uma garçonete em Los Angeles e logo passa organizar jogos de poker exclusivos com celebridades e magnatas, tornando-se milionária. No entanto, Molly começa a ser investigada pelo FBI por jogos ilegais e envolvimento com a máfia russa.

Três histórias sobre Molly Bloom

O filme segue uma narrativa não linear onde acompanhamos três histórias de diferentes momentos de Molly Bloom. Uma de sua infância e seu relacionamento conflitante com o pai exigente, outra de seu julgamento e a mais importante sobre sua carreira no submundo do poker de celebridades, onde ficou conhecida como a princesa do poker.

Diferente do que vemos em Dunkirk, a narrativa em três linhas temporais não funciona como um quebra-cabeças, mas elas se complementam no arco dramático da protagonista. É interessante como Aaron consegue amarrar tudo no terceiro ato, trazendo uma conclusão para as três histórias praticamente conectando-as, principalmente na cena onde ela e o pai conversam e acertam suas diferenças.

Para alguns o terceiro ato pode parecer meio arrastado e cansativo exatamente por ser mais lento que os demais. O diálogo com o pai, por exemplo é mais emocional do que intelectual, o que estávamos acostumados ao longo do filme. Mas e um diálogo necessário para concluir a trama por completo.





Um filme sobre poker?

A temática principal do filme é a trajetória de Molly Bloom pelo poker clandestino. Mas o filme em si não é só sobre poker. Se o fosse, não seria necessário desperdiçar cenas com a infância de Molly. O filme é sobre a Ascenção de uma mulher num ambiente dominado pelo público masculino e como ela se destaca com o status de poder sobre os homens mais poderosos dos Estados Unidos.

O tempo todo vemos como Molly supera os homens a sua volta, seu chefe, os outros jogadores de poker e como ela não se intimida em enfrenta-los. Molly se torna uma mulher poderosa, decidida e bem sucedida controlando uma das principais casas de poker de Los Aneles e, posteriormente, Nova York. Isso não muda o fato de que ela acaba tendo problemas, seja com o “jogador x”, com a máfia russa ou com os promotores que querme condená-la.


E todo o arco dramático da protagonista sobre essa ambição por poder e dinheiro é melhor compreendida quando prestamos atenção aos detalhes nas cenas sobre sua infância e seu relacionamento com o pai.



Diálogos bem construídos

Eu já disse anteriormente que, no cinema é comum valorizarmos mais as ações do que as falas. Bons diálogos são difíceis de criar e tentar contar algo usando diálogos, geralmente, transformam o filme em algo cansativo e falso.  Mas estamos falando de Aaron Sorkin, um roteirista apaixonado por diálogos.

Os diálogos de “A grande jogada” são dinâmicos, rápidos e inteligentes. Obviamente ninguém fala do mesmo jeito na vida real, e conversas nem sempre são tão dinâmicas. Contudo, Sorkin consegue fazer com que esse diálogo, mesmo não sendo verossímil, seja crível e nem consideramos o fator de verossimilhança. Os diálogos nos mantem presos, entretidos e ajudam a compreender o passado e convicções dos personagens.



Assim, a maior parte do roteiro de “A grande jogada” é composto de diálogos. Geralmente, vemos uma descrição do local da cena onde ocorrerá a ação e o resto é apenas diálogos. Mesmo o roteiro é bem equilibrado entre diálogos e ações, com informações precisas e necessárias, como quando Molly está esperando ser atendida por Charlie (Idris Elba) e ela cobre o jornal onde está sua foto.

Menos Wlak and talk

Como os personagens tem muitos diálogos, uma forma encontrada para fazer as cenas mais atrativas e menos maçante é fazê-los andarem e executarem tarefas enquanto falam. Esse estilo ficou conhecido como “walk and talk” e é utilizado muitas vezes por Aaron Sorkin tornando-se uma das marcas do roteirista.

Em “A grande jogada” vemos ainda a presença desse estilo característico de Sorkin, mas em bem menos quantidade. Mesmo assim, os diálogos não ficam exaustivos e os personagens estão executando ações enquanto falam como se servindo de alguma bebida ou fazendo a contabilidade do poker.


Diálogos explicativos

Apesar do filme girar em torno do poker, não é necessário entender do jogo para entender do filme, pois o filme explica detalhadamente quem perdeu e por que perdeu de uma forma fácil de se compreender. Existe muita narrativa "O.S.", ou seja, muitas falas em que Molly está narrando a história. É através dessa narrativa que o roteiro nos explica detalhadamente a história de Molly e o que está acontecendo na mesa de poker, para não ficarmos perdidos.

O que é incrível, por que os personagens de Sorkin são extremamente inteligentes, mas tudo é uto bem explicado, de modo que mesmo não conhecendo o nicho, os personagens explicam para o público de uma forma que não pareça forçada.

O mesmo vale para as cenas do julgamento em que através das conversas de Molly com Charlie tudo é bem explicado para leigos como nós. Como funciona o julgamento, quais as estratégias, o sistema de pontos e redução de pena. Mesmo não conhecendo sobre o sistema jurídico dos Estados Unidos, não ficamos perdidos.


Em “A grande jogada” Aaron Sorkin mostra por que é tão respeitado como roteirista que, assim como seus personagens, busca sua excelência no ramo em que atua. Aliás, se alguma alma caridosa quiser me dar um presente de aniverssário, que é dia 09 de março, eu aceito de bom grado a Master Class do Aaron Sorkin.

“A grande Jogada” concorre na categoria de melhor roteiro adaptado no Oscar desse ano que vai ao ar hoje a noite pela TNT e pela Rede Globo. E aí, para quais filmes vão sua torcida? Eu escrevi artigos sobre todos os filmes concorrendo nas categorias de melhor filme, melhor roteiro original e melhor roteiro adaptado. Clique aqui para ler sobre os demais filmes indicados ao Oscar.




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