quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Mudbound: Um ambiente racista é pior que a guerra?

Esse ano definitivamente temos muitos filmes que falam sobre racismo concorrendo ao Oscar. Isso é um tema central em "Corra" e em “A forma da Água” vemos um paralelo com relacionamentos inter-raciais, mas talvez nenhum deles foi tão forte quanto “Mudbound, lágrimas sobre o Mississipi”.




Sinopse

Após a Segunda Guerra Mundial, duas famílias, uma negra e uma branca dividem terras no delta do Rio Mississipi. Henry (Jason Clarke) tenta viver seu sonho no campo enquanto Hap (Rob Morgan) também luta por um pedaço de terra e dignidade. Em meio a esse cenário de divisões raciais, os jovens soldados Jamie McAllan (Garrett Hedlund) e Ronsel Jackson (Jason Mitchell) retornam da guerra e formam uma amizade desafiando a realidade de onde vivem.


Contexto histórico e geográfico

Quando escrevemos uma história é importante escolhermos bem onde e quando a história acontecerá. Assim tornamos a história verossímil. Nesse ponto, Mudbound cumpre muito bem seu papel.

Primeiro a localização geográfica. A história se desenrola na região sul dos Estados Unidos, onde a libertação dos escravos foi mais tardia e houve mais resistência. Inclusive, a região onde se encontra o estado do Mississipi é uma das que mais apresenta casos de racismo nos Estados Unidos, segundo uma pesquisa.

Outro fato a ser considerado é o contexto histórico. Não se trata apenas de se passar após a Segunda Guerra, mas numa época em que negros e brancos não podiam dividir o mesmo espaço. Há, inclusive, uma cena em que Ronsel é impedido de sair da loja pela porta da frente, sendo obrigado a sair pelos fundos. Essa realidade acaba sendo um tanto hipócrita, visto que durante a segunda guerra, os aliados lutaram contra um homem racista que pregava a superioridade ariana, mas dentro do próprio país que lutou contra esse homem existiam leis que proibiam casamento entre racas diferentes.

A historia escrita por Hillary Jordan Explora muito bem da localização e contexto histórico por onde se passa.

O racismo é pior que a guerra?

Mesmo abordando o tema de segregação racial no filme inteiro, é apenas na metade, quando Jamie e Ronsel voltam da guerra que a trama realmente flui e começa a ficar interessante. Apesar do trauma de guerra e de provavelmente desejaram nunca mais irem para a guerra de novo, a história mostra uma nítida diferença nas questões raciais dos Estados Unidos em relação à Europa.

Durante os tempos de guerra, ambos eram tratados como heróis. Ambos eram iguais, independente da cor da pele. Ronsel, inclusive teve uma namorada alemã enquanto esteve na Europa. Mas, ao voltarem para casa, os heróis de guerra encontram o mesmo ambiente de segregação.


Ronsel, que era um herói bem tratado na Europa, é tratado como lixo no Mississipi. E Jamie, além da perseguição por ser amigo de um negro, é desrespeitado pela família devido seu problema com álcool que desenvolveu graças aos traumas.

A guerra foi horrível para ambos, mas o filme mostra como a vida racista e segregada do Mississípi pode ser mais cruel do que a própria guerra, principalmente para Ronsel. É revoltante ver como um homem que estava se sacrificando enquanto muitos sentavam-se confortáveis em suas casas não tem o devido respeito que merece.

A primeira e ultima cena

Não cheguei a ler o livro original, mas é interessante como os roteiristas, Virgil Williams e Dee Rees escolhem abrir o filme com o que seria a última cena. Claro que esse filme não é o primeiro e nem será o último a fazer isso. Mesmo assim, é interessante os questionamentos que levantamos.

Na cena de abertura, Jamie e Henry estão cavando uma cova para seu falecido pai (Jonathan Banks). Percebemos um empenho por parte de Henry para honrar o pai, recusando-se a enterrá-lo em um tumulo de escravos, e um descaso por parte de Jamie. E com o tempo durante o filme vemos por que Jamie não da a mínima para o pai.


Quando a família de Hap aparece e Henry corre para pedir ajuda, Laura e Jamie tentam impedi-lo. Vemos, claramente uma tensão entre as famílias e nos questionamos por que a família de Hap está partindo no meio da temporada de colheita.

O filme abre com essa sequencia, para então nos contar o que aconteceu com essas famílias e com cada personagem. 

Drama familiar

Mudbound é um drama sobre duas famílias. Duas famílias ligadas pela lama de uma fazenda no delta do Mississípi. Há traição, preconceito, brigas, violência e lágrimas. A opção por narrar a história através de diferentes pontos de vistas enriquece a história e nos ajuda a compreender melhor o psicológico dos protagonistas.

A trama se desenvolve lentamente, em alguns pontos pode até ser entediante, mas culmina num momento tenso com cenas fortes e cruéis, de certa forma torturantes.

O filme mostra como um ambiente racista e segregado pode ser tão ruim ou pior do que a guerra e que não importa seus feitos, negros continuam sofrendo algum tipo de preconceito.



Apesar de ser uma produção da Netflix “Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi” ainda não está disponível no catalogo brasileiro, mas estreou na última quinta-feira (15) nos cinemas nacionais e está concorrendo em quatro categorias no Oscar. E você? O que achou de Mudbound? Acha que ele leva algum Oscar esse ano?


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