segunda-feira, 10 de abril de 2017

BBB 17, o caso do cantor Victor e a romantização do abuso na literatura

Eu não acompanho a casa mais vigiada do brasil desde sua segunda edição. Mas as noticias que têm invadido as redes sociais nos últimos dias tem sido difícil de ignorar até mesmo por aqueles que pouco simpatizam com o programa. Não se trata apenas de um caso isolado, mas diversos momentos em que os telespectadores do programa denunciaram a violência, machismo e abuso do participando Marcos nesta edição.



Em diversos momentos, o participante literalmente encurrala a namorada Emilly contra a parede, impedindo-a de se afastar, coloca o dedo na cara dela, pega, agressivamente pelo braço e chama atenção da mulher de modo violento, manipulador e machista. Muitas mulheres chegam a afirmar que tiveram medo de Marcos enquanto assistiam ao programa. Se nós, que estamos seguros dentro de nossas casas, acompanhando apenas pelo televisor ou internet, sentimos medo nas atitudes desse homem, como deve se sentir a própria Emilly que é obrigada a conviver com ele a menos de um palmo de distancia. E não digo menos de um palmo no sentido figurado. Nas imagens ele realmente “conversa” com ela com os lábios colados no rosto da garota. Há casos em que a garota claramente diz para ele se afastar, mas o rapaz a segura e domina por completo, chegando a segurar os braços da garota ou a agarrá-la de corpo inteiro.
Você pode pensar que a produção do programa tomaria alguma atitude, certo? Aparentemente não. Pelo menos até agora, a produção não tomou nenhuma atitude em relação às ações violentas de Marcos. E, pelo que vimos recentemente, não apenas a produção, mas boa parte do Brasil está de acordo com as atitudes do cirurgião. No ultimo paredão, houveram 77,17% dos votos para que ele permanecesse na casa, apesar de suas agressões.
O que nos leva a questionar. Se o participante é tão violento com a namorada, por que ela continua com ele? E por que 77% dos espectadores não se incomodam com isso? Aí é que está, para muitas pessoas, esse relacionamento é normal e até romântico. Casos como o de Marcos e Emlilly existem por todo o Brasil e no mundo, e quase todos são vistos por poucas pessoas. Muitas vezes, quando acontece alguma tragédia, a culpa acaba caindo na mulher que ou não partiu quando deveria ou fez algo para deixar seu macho bravo. O que não comentamos é que muitas mulheres são condicionadas a pensar que relacionamentos abusivos são românticos.
Tivemos ainda recentemente o caso do cantor Victor da dupla “Victor e Leo” que foi denunciado pela esposa por agressão. Ao longo do processo, muitas pessoas defenderam Victor, acusando a mulher de querer prejudicá-lo. A própria mulher chegou a dizer que tudo não passava de um mal entendido. Novamente, a mulher é culpada ou acredita que o homem não errou de proposito e merece ser perdoado.
Um homem poderoso (seja dono de empresa, cantor famoso ou cirurgião plastico), influente, dominador, violento e que “se arrepende” disso as vezes.Esse perfil do Marcos ou Victor é o mesmo perfil presente em muitos homens não só no cinema, TV como também na literatura. Ja disse em outro post, que frequento o Wattpad (site dedicado a escritores e leitores), bem como grupos de discussões literárias no facebook. Há muitos títulos e obras surgindo enaltecendo a imagem de homem dominador, mas “quebrado” por dentro. De modo que através do relacionamento com a protagonista ele se torne uma boa pessoa.
Muitos devem associar isso aos tão chamados “Romances HOT”, chegando a culpar este estilo literário. Os romances HOT naõ são os culpados, na verdade, este estilo literário vem também sendo vitima disso. Antes de mais nada é necessário lembrar que os romances HOT, voltados, em geral para o publico feminino tem um grande papel tanto com seu publico como na sociedade. Este é um estilo que, geralmente, aborda o [re]descobrimento da protagonista e sua jornada de auto-conhecimento e liberdade sexual, bem como trata sobre o papel da mulher numa relação e na sociedade. Apesar de não ser um estilo que me agrada, não duvido que tenham ótimos títulos e obras dentre os romances hot com esse papel e que são muito melhores que as copias de 50 tons de cinza mais violentas.
Quanto ao Wattpad, não é de hoje que vemos em alta livros em que a protagonista se envolve romanticamente com um homem violento em um relacionamento abusivo. Cheguei até a ver um livro na categoria de AVENTURA em que a protagonista é estuprada no primeiro capítulo e se apaixona pelo agressor de modo que os dois ficam juntos na história. E não. Não é um caso isolado. Denunciei para os moderadores da plataforma? Claro que sim! E constatei que fazer uma denuncia no site é complicado e burocrático. Assim como fazer qualquer denuncia de abuso ou violência contra a mulher.
Varios desses atores em ascençâo lançam seus livros em plataformas gratuitas como amazon ou publicam por conta própria. Mas, além destes, há também livros lançados por editoras grandes nas prateleiras das livrarias romantizando o abuso da mesma maneira. Muitos, não tão fortes como o de uma garota estuprada que se apaixona pelo estuprador. Mas todos com o mesmo perfil de um homem controlador, ciumento, violento, sociopata e “romântico”.
Os romances HOT vêm deixando de serem histórias sobre liberdade sexual e autoafirmação da mulher para serem histórias romantizando abusos e violência. Ainda há mulheres que acreditam que podem mudar o homem com amor. Que acreditam nele quando ele chora dizendo que está arrependido, mesmo que ele tenha feito a mesma coisa nas outras vezes e, em todas as vezes o resultado foi o mesmo. Que acreditam que ele age assim por algum motivo. Nem todos os homens são Christian Grey que tinha um problema psicológico por trás de suas atitudes e com certeza o destino de muitas mulheres é bem diferente da de Anastacia Steele. Aliás, no caso do sr Grey, ele precisava mesmo é de um psicologo, não de uma mulher. Mulher nenhuma merece permanecer em um relacionamento abusivo na esperança de que seu “Christian Grey” supere, com a força do amor, seus problemas psicologicos e violentos.
Sim, nessas discussões em grupos de literatura, abordamos assuntos como a romantização do abuso e da violência. Mulheres dão relatos de que elas acreditavam que elas estavam erradas pelo seus namorados/maridos serem violentos com elas. E nessas mesmas discussões apareciam outras mulheres afirmando que o amor por um homem pode mudá-lo. Afirmando que esse tipo de coisa só acontece nos livros e está tudo bem, porque la é ficção.
Aqui vai um recado para quem acredita que o homem muda durante a relação com a mulher: Você não tem a obrigação de mudar ninguém não! Mas enquanto os livros, filmes, series e a mídia continuar a romantizar isso, ainda existirão não só mulheres mas uma sociedade inteira que acredita que isso é normal. Que acredita que isso é romântico.
Histórias que romantizam o abuso e a violência contra mulheres, não ó as condiciona a acreditar que isso é amor, como cria inúmeros casos de “Síndrome de Estocolmo” em que pessoas se apaixonam pelos seus agressores. Sei que há mulheres e há mulheres. Sei que algumas mulheres preferem um homem com “pegada”. Mas há uma diferença entre um homem de “pegada” e um homem violento. Não é meu dever discutir o que dois casais fazem entre quatro paredes, desde que haja consentimento. Mas devemos discutir que há uma diferença entre uma coisa e outra. E é papel da mídia mostrar que uma mulher não precisa aturar um homem violento por amor, nem pelos filhos, nem por nada.
Devemos parar de consumir mensagens como essa. Devemos parar de produzir mensagens como essa. Precisamos, como sociedade, por um fim à romantização do abuso. O que acontece com Emily ou a esposa do Victor acontece com muitas outras mulheres. Não só com mulheres, mas em alguns casos expandindo para filhos e outras famílias. Nem todas podem colocar seus maridos na justiça. Nem todas as casas são tão vigiadas quanto a da televisão. E acima de tudo, nem todo mundo entende uma simples mensagem: Violência não é amor! Violência é crime.

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