sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Quantos "Não" você precisa ouvir?

Quem acompanha minha saga do “projeto Vancouver Film School” sabe que desde o inicio desse mês comecei a encarar o desafio de juntar dinheiro para um intercâmbio, a fim de estudar roteiro em uma das maiores escolas de cinema da America do Norte. Incentivado pelos amigos e familiares, comecei a buscar alternativas de uma renda extra com essa finalidade. Não posso dizer que foi fácil, muito pelo contrário, esse mês de Agosto foi estressante e exaustivo.


Coloquei em prática a primeira das alternativas: vender trufas. Comprava prontas de lugares por um preço muito barato para revender depois do trabalho. Meu maior problema é que eu sou um péssimo vendedor. Eu estava hesitante por diversos fatores. Muita coisa passou pela minha cabeça: “Tem vendedores ambulantes que precisam dessa renda para ter comida na mesa. Eu sinto que estou sendo muito mesquinho por fazer a mesma coisa só para ir para o Canadá”. Mesmo assim, lá estava eu com uma bolsa térmica cheia de trufas na primeira segunda-feira de Agosto.

As belas trufas que vendo por apenas R$2,50

Eu tremia! Meu coração batia tão rápido que parecia um solo de bateria do AC/DC. Além disso eu suava. Para mim, é fácil apresentar uma palestra ou escrever minhas idéias num blog. Mas parecia que eu estava caminhando para a morte quando decidi vender trufas. Mesmo assim eu estava confiante! Preparei um discurso, contando meus sonhos, treinei meu melhor sorriso e formas atrativas de abordagem em vendas. Pesquisei na internet técnicas para vender minhas trufas. Eu estava empolgado no primeiro dia. E foi um completo fracasso.

No primeiro ponto de ônibus que fui vender, havia outro vendedor ambulante. Logo, aqueles pensamentos de que o cara precisa mais do que eu, me dominaram. Eu andei pelo centro da cidade sem falar com ninguém até criar coragem e começar a vender. O discurso que eu havia preparado? Só pronunciei uma única vez e ninguém sequer prestou atenção. Na verdade, as pessoas não esperavam nem eu terminar de dizer “Boa noite” para dizer que não estavam interessadas e virarem a cara. Eu rodei o centro da cidade por duas horas e tudo o que ouvi foi “não”. Eu não entendia o motivo. Não era o preço, as pessoas nem esperavam eu falar o preço. Elas simplesmente não queriam nada comigo. Então dizer não é mais fácil e rápido do que esperar ouvir todo o resto. Os nãos vinham sem piedade, como um tapa na cara da minha autoestima.

Esse não foi meu único fracasso em Agosto. Eu tentei fazer trabalhos freelancer em escrita e traduções, mas nenhuma proposta que enviava eram aceitas (nem as que eu oferecia para traduzir os textos de graça). Os e-mails que mandei para produtoras, com meu portfólio chamando para tomarmos um café, retornavam todos com mensagens como “estamos muito ocupados agora, mas obrigado por entrar em contato”. Essas coisas podem te machucar. Não abrem feridas, tampouco sangra, mesmo assim você se sente fraco... derrotado. A luta mal tinha começado e eu já estava beijando a lona diversas vezes.

Por incrível que pareça isso não acabou comigo. Eu havia dito a todo o mundo que eu não desistiria tão fácil, seria idiota desistir logo no primeiro dia. É engraçado quando você pensa, mas mesmo depois de um “não”, você continua vivo. Eu aguentei duas horas de “nãos”. Depois de tanta frustração, você começa a perceber que você pode sobreviver àquilo. Depois de um fracasso, percebemos que não somos feitos de vidro. A cada não que eu ouvia, conseguia tirar forças para continuar. Vi que eu estava preocupado demais, o mundo continuava, mesmo com um não de alguém. Tudo bem, siga em frente, continue tentando. Citando Rocky Balboa: “Se trata de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando”.

Eu, você, ninguém vai bater tão forte quanto a vida. Mas não se trata de quão forte você bate. Se trata de quão forte você aguenta apanhar e continuar em frente

Nos dias que se passaram, eu consegui vender algumas trufas. Amigos e familiares eram meus melhores clientes. Mas não eram os únicos. Pessoas começaram a comprar minhas trufas pelo centro da cidade. Lembro-me dos primeiros desconhecidos que compraram minhas trufas. Foi um idoso e sua filha. Conversamos e compartilhei com ele meus sonhos. Não foi um discurso previamente ensaiado, foi natural. Eu nunca mais vi aquele senhor novamente. Talvez ele estivesse ali exatamente para ser meu primeiro sim.

Comecei a compartilhar minha trajetória no Facebook, como um diário. E essas postagens atraíram pessoas que estavam dispostas a comprar trufas, nem só pelas trufas, mas porque queriam fazer parte indiretamente dessa trajetória.
O mês de agosto foi difícil. Principalmente por que eu detesto vender coisas, até mesmo trufas. Não sou um vendedor de trufas, porém eu preciso vendê-las por um objetivo maior. Ultimamente verifiquei que eu não estou mais gaguejando quando ofereço minhas trufas. Não fico mais nervoso. Aquele terror que eu senti no primeiro dia passou. Eu não caio tão fácil quanto antes. Já até me falaram que só de olhar para minha cara, sentem vontade de comprar trufas. Estou aprendendo a administrar um negócio. Pensando em idéias para aumentar a renda, para expandir meus negócios. Pessoas estão contribuindo com idéias.

Agosto foi um mês muito difícil e estressante. Todos os dias eu acordava e olhava para o valor que preciso arrecadar e minha vontade era me enrolar na coberta e fazer dali meu lugar seguro. Mas eu não posso dar ouvidos à vontade de desistir. Como diz Salomão: “a perseverança pode vencer qualquer dificuldade” (Pv 25. 15). Foi preciso ouvir muita gente falando “não” por um dia inteiro para, finalmente alguém dizer sim. Todos os dias, quando vendo trufas, muitas pessoas ainda dizem não. Há dias em que eu vendo só uma trufa. E aí é que vem o lado bom da primeira segunda-feira: Uma trufa ainda assim é melhor que nenhuma. Talvez o bom de ter um fracasso tão grande é que qualquer pequena vitória que você tiver (por mais inferior que seja em relação às demais vitórias) é mais animadora do o maior dos seus fracassos.

Agosto acabou. Mesmo tendo utilizado de uma parte do lucro das trufas, ainda tenho um dinheiro sobrando e destinado ao projeto Vancouver Film School. Conseguimos vender uma média de quase 100 trufas por semana (creio que umas 70 ou 80). Em setembro quero começar a oferecer lanches naturais além de ter outros projetos em mente. Um dia, se Deus quiser iremos para Vancouver. Um dia, se Deus quiser, produziremos uma boa série ou filme. E se Deus quiser, conseguiremos realizar muitas outras coisas. E tudo isso, teria começado com duas horas seguidas de “nãos”.

Aprendi, vendendo trufas, que ouviremos muito mais não do que sim. Só depois de falhar muitas vezes que você para de te medo do fracasso. Quantos “nãos” você precisa ouvir até perceber que é forte o suficiente para continuar lutando? Quantos nãos são necessários para você glorificar cada sim que ouvir? Se você sabe o que quer, esteja preparado para apanhar muito. Mas não desanime. Pegue esses nãos, respirem fundo levantem-se e continuem a luta. Se você aguenta ficar em pé, você aguenta mais um round.

Obrigado pelo carinho e atenção. Espero que esse texto tenha te ajudado de alguma forma.

Continue lutando. Continue sonhando.

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